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A Feira Artístico-Cultural de Colônia Leopoldina como ato de resistência cabana

A Feira Artístico-Cultural (FEIRAL) de Colônia Leopoldina/AL, ocorrida entre os dias 22 e 23 de janeiro de 2026 foi, sob o meu ponto de vista (e somente ele tenho disponível com confiança), um sucesso. Vou tentar à frente argumentar no sentido de mostrar que o mencionado evento se satisfez.

Primeiramente cabe ressaltar que a FEIRAL/2026 não foi o primeiro acontecimento cultural no sentido de se mostrar parte do acervo cultural da cidade em praça pública. É que em meados dos anos 80 do século passado, um grupo de fazedores/as de cultura – à época tal expressão inexistia -, também na Praça Dom Pedro II, realizou uma exposição de arte ao lado da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo.

Fizeram parte desse momento, Zé de Melo, Elias Pinheiro, Irapuã, Adelmo Lins, Jr. Amorim, dentre outros. Era o Grupo Cultural e Artístico Leopoldinense (GRUCALE). A finalidade do grupo era justamente produzir e espalhar as produções culturais de pintores, escritores, artesões, etc. Alinhado à esquerda, os seus membros faziam da arte um instrumento de crítica social e promoção da cidadania.

Com o tempo o GRUCALE se desfez e, com exceção de Zé de Melo, os demais membros estão no “Além” ou deixaram de ver a cultura como mais relevante signo humano. Retornemos à FEIRAL!

A FEIRAL nasceu da inquietação de dois acadêmicos: o Prof. Zé de Melo e o Prof. Amaro Hélio. O primeiro é o leopoldinense com maior produção acadêmica, desenvolvendo reflexões, desde os anos 80 do século XX, fundamentais ao Vale do Rio Jacuípe. O segundo é um dos maiores pesquisadores de Alagoas sobre as populações indígenas e como o poder senhorial se articulou na Região da Mata Norte de Alagoas.

Por sinal, Amaro recentemente publicou a “A pacificação das matas cabanas”, que representa a mais importante produção historiográfica sobre as motivações do surgimento da Colônia Militar Leopoldina, que deu origem à nossa cidade. Trata-se de um texto que deve ser distribuído em cada casa da cidade leopoldinense.

Há pouco mais de seis meses eles incentivaram a criação de um grupo de pesquisa, denominado GP JACUÍPE. O objetivo dessa instituição social é produzir conhecimento nas mais diversas áreas do saber, tendo como pano de fundo ou matéria-prima os complexos da região da mata. É um projeto audacioso e também promissor.

Foi nesse bojo que a FEIRAL adquiriu vida. Voltada à cultural (discussão literária, capoeira, música, pintura, xaxado, etc), a FEIRAL não apenas rompeu as amarras históricas de uma região que levou quase cem anos para receber a sua primeira escola, obstáculos estruturais, ao estilo de Braudel, agora compreendidos a partir de Amaro Leite.

A FEIRAL também colocou no divã o que vou chamar de Vontade de Despotência da cultural municipal. Explico. [Sim, o termo “despotência” é uma licença poética).

Essa Vontade de Despotência [é a negação de Nietzsche, da vontade de criar, de superar limites, etc;] se manifestou, linguisticamente, em dois momentos. O primeiro quando se afirmou que “Precisamos desenvolver uma cultura que seja apenas nossa, uma cultura original (…)”, o segundo quando se disse “O público foi motivo de frustração (…).

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Público no FEIRAL 2026. Foto: GP JACUÍPE.

O público não foi razão de frustração. Na realidade, somente o fato da realização da feira é, historicamente, um ato de resistência. O seu público não poderia ser “grande em quantidade”, pois no território onde a FEIRAL ocorreu, onde o GP JACUÍPE vai desenvolver as suas atividades, o que importa são outras coisas, como as manifestações institucionais de como manter os empobrecidos nas bolhas.

Portanto, para mim, sob esse aspecto a FEIRAL foi fenomenal, pois se constituiu num dispositivo de resistência, como ocorreu com Zumbi, com os cabanos e outros movimentos de luta.

Contrariando a sandice de que precisamos de uma cultura própria, somente nossa, a FEIRAL mostrou que cultura é plural; cultura, sob a antropologia, é simbiose, é mistura de índios, negros, brancos pobres, mestiços e caboclos. É o amalgama de suas relações culturais. Isso é cultura!

Por fim, torna-se necessário mencionar um movimento fora da curva. Trata-se da presença do chefe do Executivo Municipal, o prefeito, nos dois dias da FEIRAL. A sua presença nos dois dias simbolizou quase uma anomalia, vez que não é corriqueiro esse tipo de comportamento do maior mandatário local ao longo da nossa história. Parafraseando Charles Darwin, esperamos que seja uma mutação na história institucional municipal.

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Prefeito Gilberto Sobreira fala sobre a FEIRAL. Foto: GP JACUÍPE.

Parabéns ao GP JACUÍPE pela organização da FEIRAL. Que venham outras.

A resistência cabana persiste!

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1 comentário

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José de Melo Neto

Caro Silvio! Gostei de sua abordagem sobre a realização da I Feiral. Certamente, trouxe consigo várias de suas constatações que só posso assinar embaixo e reforçar a necessidade de mais realizarmos futuras feirais. Abraços pela sua disposição de pensar esse mundo concreto posto.

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